quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Anjo Negro



E que os sonhos de todos se realizem nessa nova fase de suas vidas!

Nesse momento todos jogaram os seus capelos para cima em um gesto simbólico enquanto tocava aquela trilha sobre vencedores.

Era a formatura do ensino médio de 2010. Todos se sentiam realizados. A maioria empolgada para a universidade. Poly era uma delas. Cursara o ensino médio e já sabia o que queria ser: Psicóloga. Ela nunca errava em nada. Sabia muito bem como traçar o perfil de qualquer pessoa. Bastava olhar o estilo de roupa, ou o jeito como a pessoa penteava o cabelo. Ela sempre dizia que escolhia suas amizades pelos perfis, para ela não existia química ou compatibilidade. Ela escolhera Ana para ser sua melhor amiga pelo simples jeito dela se expressar. O que ela não admitia é que na verdade as duas tinham o mesmo gosto para tudo e que nas vidas passadas chegaram a ser mãe e filha, era o que Ana pensava.

Apesar de traçar perfis com uma facilidade incrível, Poly sabia muito bem como entender uma mente vazia ou complicada. Coisas de psicólogo. Ela nascera para aquilo.

Depois de alguns meses prestou vestibular e é claro, passou. Ela ficou muito feliz, foi homenageada pela família e amigos. Mas o triste e que teria de se mudar para a cidade onde ficava o polo. Mesmo assim Poly e Ana estavam empolgadas. Finalmente morariam sós, seriam independentes, conheceriam gatinhos, beberia e fumariam sem os pais saberem. Enfim, finalmente estavam livres e se sentiam mulheres.

Chegaram à cidade universitária e logo descobriram que sua republica era infestada por pessoas completamente diferentes. Tinha musica de todos os ritmos, estilos diferentes, todas as possíveis e impossíveis opções sexuais. Aquele ambiente fez com que ela sentisse a pior jeca da atualidade. Era do interior, seu estilo era romântico, penteava os cabelos no modo que qualquer pessoa descobriria que era virgem. Baseado em seus conhecimentos, Poly não tinha duvida sobre o perfil daquele lugar: era o inferno.
Resolveu sair para respirar ar puro e se encontrou em um lindo jardim. Ali sim era o paraíso. Tinha poucos jovens deitados no gramado tocando instrumentos. Alguns liam e outros namoravam. Resolveu se sentar perto de um delicado chafariz e ficou a observar os pássaros que bebiam a agua que descia delicadamente de um jarro que a moça triste e escultural segurava.

Sentiu uma brisa quente empurrar seu rosto para a direção mais calma do jardim. Embaixo de um lindo ipê roxo estava ele. O garoto mais lindo que ela já vira em toda a sua vida. Ele era completamente diferente dos rapazes de sua cidade e da faculdade. Tinha o estilo meio gótico, o que logo fez ela deduzir que era solitário. Mas no meio do gótico os óculos faziam o estilo ficar romântico trazendo um fino e delicado retro. Atrás daqueles óculos tinham os mais belos olhos verdes e tristes que ela já tinha visto. Ele era rápido no teclado de seu laptop, seus olhos não piscavam e estavam secos. Percebeu que ele estava ali há muito tempo. Ela queria fotografar aquela imagem linda pra sempre em sua memoria. De repente, uma voz fê-la sair do transe: “meu lindo anjo negro”. Era assim que se referiria á ele. De repente ele olhou para ela de uma forma como se estivesse incomodado com o jeito que ela o observava. Ela sentiu um nó em sua garganta.
A garota saiu correndo pelos corredores da faculdade. Queria gritar, cantar, seu sorriso se esticava de orelha a orelha. Quase derrubou a porta do quarto, não se aguentava de tanta ansiedade para contar a Ana o que havia lhe ocorrido.

‘_Amiga não te conto: encontrei ele! Encontrei o amor da minha vida!’

‘_Ai menina, para. Você mal chegou e já tá achando que ate aqui os meninos te adoram?’

‘_Para Ninha, você sabe que nunca fui popular. Eles e que não me notavam. Só davam atenção pra Tifany e o grupo dela. Esse garoto não. Ele e o garoto mais lindo que já vi em toda minha vida. Mais parece um anjo. Meu lindo anjo negro’ - foi o que pensou enquanto um sorriso escapou de sua linda e delicada boca.

‘_Mas você pelo menos descobriu que curso ele faz, que republica mora? Como ele é?’

‘_Ainda não sei. Ele estava tão lindo em baixo daquela arvore. Parecia uma miragem. Só sei que ele é diferente... É branco, cabelos lisos, um pouco castanhos e seus olhos são o mais puro verde que já vi.’

‘Ai bitchi! Quero ver hein... Pelo jeito deve ser o maior gato.’

Saíram há procura do rapaz em direção ao jardim. Chegaram lá e encontraram apenas a arvore. Já estava escuro e não havia sinal de que alguém passara por ali.

‘_Miga cê deve tá louca ne? Tipo uma abstinência de homem daquelas para imaginar que alguém ficaria nesse lugar horrível e assustador. ’

‘_Ele estava aqui há 5 minutos, juro. Deve ter ido pra republica dele. Vamos procura-lo.’
‘Mas procurar o quê, Poly? Você viu um suposto rapaz. Não sabe sequer o nome dele nem que curso faz. Seria como procurar uma agulha no palheiro. ’

‘_\Eu não vou desistir dele. Sei que de algum jeito eu o encontrarei nesse imenso prédio. Nem que eu tenha de bater de sala em sala. ‘

Naquela primeira noite, Poly não conseguiu dormir. Sentia um frio na barriga só de lembrar-se  daquele olhar.

Começaram as aulas e Poly não o viu mais. Estava á ficar paranoica e desesperada. Qualquer rapaz que via de costas que se parecesse um pouquinho com seu amado ela esbarrava pra ver se era ele, mas se decepcionava ao descobrir que não. A saudade foi tomando conta do seu coração. Já se passara um mês e nunca mais ela o encontrara. Já havia pintado seu lindo rosto por todo o quarto. Ana tentava encoraja-la lhe apresentando os novos amigos de sua turma, mas Poly não queria saber de mais ninguém. Sentia febre e a noite sonhava como seria se eles ficassem juntos.

Em um dia frio Poly caminhava pelo corredor em direção á aula quando passou em frente ao jardim. Viu uma pessoa bem longe sentada perto do chafariz. Resolveu ir ate lá, afinal o que uma pessoa faria sentada ao ar livre em dia frio? Os pensamentos corroíam a cabeça de Poly. Foi se aproximando e percebeu que se tratava de um rapaz. Chegou por trás e para chamar a atenção e não assusta-lo deu uma ‘coçada na garganta’:

‘_Com licença, você esta esperando por alguém? ‘

O rapaz se virou e Poly sentiu suas pernas tremerem. Era ele. Sentiu um frio na barriga. Poly queria sumir, mas ao mesmo tempo não queria que aquela linda imagem acabasse nunca. Ele estava mais lindo que a primeira vez. E agora tão perto que Poly não sabia o que dizer.

- Estou esperando por uma pessoa, porém não sei se ela virá.. – Disse o rapaz.

- Ah, perdão. Desculpe, eu não quis lhe machucar mais ainda.

- Não tem problema. Prazer, meu nome é Wilton.

- Prazer, Poly.

Os opostos realmente se atraem. Poly, com seus trajes rústicos, agradava solenemente o rapaz; via em seu olhar a mais pura simplicidade que um ser humano pode obter. Já Poly, observadora como sempre foi, tentava decifrar aqueles olhos tristes e cabisbaixos que se ocultavam ao menear a cabeça para o céu. Parecia ser um garoto tímido e muito pouco extrovertido. Escondia-se nas músicas que escutava e nas amizades de internet que muito frequentava. Sofria por dentro, e isto estava nítido em seus olhos. Mas aqueles trejeitos eram óbvios. Poly queria entender o seu interior e não conseguia.

Todas as tardes, Poly sentava naquele jardim e conversava com o garoto até o crepúsculo se aparecer.
Estavam apaixonados.

Certo dia, em que Poly pesquisava sobre um trabalho na biblioteca da escola, deparou-se com um jornal da escola que estampava a foto de Wilton em sua capa. “Garoto se suicida após término de relacionamento”. Poly caiu da cadeira e vários alunos riram. “Não pode ser”, dizia ela. Poly foi correndo para o jardim, e quando chegou lá viu o garoto sorrindo e a se desaparecer lentamente, lentamente, até se dissipar por completo. No chão úmido, Poly leu uma mensagem: “Obrigado por me fazer amar de novo. Deus me deu mais uma chance de viver. Eu não poderia ir para o céu, pois eu fui um suicida, mas ele me enviou você, e acreditava no amor que sempre guardei em mim. Não podemos morrer sem antes encontrar a nossa alma gêmea. Você é a minha, e estarei ao seu lado sempre que precisares de mim; Adeus!”.


“Adeus, meu lindo anjo negro”, disse Poly sorrindo para o céu.

Por Ana Meireles

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A garota da internet



Eu andava muito deprimido, meu jovem, pois a minha namorada havia me traído com um cara que se dizia muito meu amigo. Aquilo era uma traição e eu jamais poderia lhes perdoar.

O mundo havia desabado em minha cabeça.

Passei dias sem me alimentar direito. A insônia foi a minha companheira por várias noites. Corpos estranhos se apossuíram de mim.

Sofri uma mutação devastadora.

Para me desvencilhar daquele espetáculo nada apreciador, eu comecei a usar a internet para amenizar o meu sofrimento. A recomendação viera de um amigo meu. A minha insônia só fez aumentar, pois eu ficava horas em frente ao computador conversando imoralidades e me masturbando só para sentir prazer. Dias depois, eu excluía a pessoa e começava uma nova amizade. E assim sucessivamente. De fato aquilo estava acabando comigo.

Foi quando eu a conheci, meu amigo. Linda! Olhos redondos como a de um desenho japonês, um sorriso daquele que não expõe os dentes, um rostinho de menina, porém o corpo já era de uma linda mulher.
Era uma garota perfeita para preencher a lacuna que me faltava.

Inteligentíssima! Ela me decifrou apenas pelo o seu vasto conhecimento de astronomia. Eu fiquei apaixonado por ela. Chorava em minha cama quando ela não ligava a noite. Morava tão longe mim. Mas por morar tão longe assim, não deveria sumir.

Um dia resolvemos nos encontrar. Marcamos no aeroporto, pois eu iria lhe apanhar. Ela não apareceu. Liguei para ela, mas deu número inexistente. Meu coração apertou meu peito a ponto de sufocar-me.
Fui para a casa. Entrei no meu computador para procurar o seu email e não encontrei. A sua rede social havia sumido. Pesquisei a nossa conversa gravada em meu computador e estranhamente não encontrei. Ela sumiu de mim, amigo.

Todo aquele espetáculo, nada apreciador, voltou. Cheguei a pesar quarenta e cinco quilos. Perdi líquidos e mais líquidos por chorar incessantemente. Senti fortes dores no meu corpo. Minha cabeça flutuava. Parecia que ela não estava fincada em meu pescoço. Tentei todas as noites viajar para os braços dela através da viagem astral. Porém eu nunca a encontrava. Ela havia realmente sumido.

- O que você acha de tudo isso, doutor? – Perguntou deitado em um sofá da clínica o autor desta historia.

-  Você parece lúcido perante tudo o que diz. Mas você não mostra certeza em suas palavras. Você chega a hesitar sobre tudo isso que aconteceu com você.

O autor da historia parecia não entender nada no que o doutor lhe falava. Parecia que realmente a sua cabeça não estava fincada em seu pescoço.

- Você tem alguma prova que essa moça existiu? – Perguntou o doutor.

- Nenhuma. – Respondeu o autor.

- Então chego à conclusão de que esta moça não existiu. Foi apenas uma criação do seu desespero de conhecer alguém. Ela é a sua criação, meu amigo. Ela não existe. Sinto muito! Casos como o seu são normais em minha clínica.

O autor desta historia colocou as mãos em sua cabeça e a sacudiu violentamente. Parecia não acreditar na mais pura verdade que o doutor lhe dizia.

“A solidão é uma forma de opressão. No meio de tantas pessoas supérfluas, acabei conhecendo uma pessoa perfeita. Essa pessoa, no entanto, não passava de uma criação da utopia do meu ingênuo desejo de apreciação e devoção.”

Quinze dias depois, o autor deste conto se internou na clínica com um avançado estado de loucura. forma de opress

Autor: Patrik Silva

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Menino Atrevido


Fiquei sabendo que ela iria nos visitar. Como ela poderia me maltratar tanto assim! Eu era apenas um garoto de onze anos. Fomos vizinhos por um ano e meio, e ela sabia que eu era apaixonada por ela. Um dia eu a beijei. Foi meu primeiro beijo. E um beijo inesquecível, pois eu estava apaixonado. Depois de um ano e meio ela voltaria para nos visitar. Ela e sua mãe. Ela, sua mãe e seu namorado de dezessete anos. Que droga! Ela já tinha quinze. E eu só onze. Ela foi tudo que eu sempre sonhei. Não! Ela é tudo que eu sempre sonhei. Ainda a amo. Mas eu poderia a esquecer. Porém ela voltava para me atormentar. Para me trazer de volta angustia e solidão. Choro e desprazer. Ela iria nos visitar, e eu ainda a amava.

Eu poderia até sobreviver perante aquela visita; mas trazer o namorado foi me castigar demais. Ela sabia que eu ainda amava. Eu sempre lhe mandava cartas. Cartas que nunca foram correspondidas e talvez nem abertas.

A campainha tocou. Eram eles. Tranquei-me no meu quarto, porém minha mãe me chamou para recepciona-los. Eu não fui. Eu não poderia.

Ouvi a voz de sua mãe. Ouvi a voz dela. E ouvi a voz dele.

Minha mãe me chamou. Eu não respondi. Eu tinha perdido a minha voz.
Mais uma vez minha mãe me chamou. Dessa vez eu gritei dizendo: “Já vou!”.

Chorei tanto. Fui ao banheiro para lavar meus olhos. Eles estavam inchados. E agora? Eu deveria ir assim mesmo.

Desci as escadas com roupas de casa. Eu estava fora de mim. Talvez tenha sido o perfume dela que me hipnotizou. Desci as escadas com os olhos fechados e pensando nela. Ao olhar da sala de jantar, vi a mãe dela, sentada perto de minha mãe, e ela ao lado de seu namorado com as mãos dadas.

- Oh meu filho. Aproxime-se. – Disse a minha mãe.

Olhei para todos da sala e fui andando lentamente na direção dela. Ao chegar em frente dela, que estava sentada na cadeira da sala de jantar, agachei-me e dei-lhe um beijo em seus lábios. Todos me olharam admirados e eu lhe disse uma frase em seu ouvido: eu te amo, minha amada!


Voltei para o meu quarto e não parei de rir. Aquela foi uma atitude que eu jamais me esquecerei, pois eu amo você. 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A dor de uma perda



- Você está ficando tão antipática, Susan! – Disse Pedro. – Já não suporto mais certas atitudes suas.

- Às vezes não lhe entendo, Pedro. Você nunca me procura. Nunca me liga. Nunca diz: eu te amo. Não dá para entender você. Às vezes eu duvido de seu amor. Tudo o que eu faço é só para lhe agradar. Nada mais que isso – Disse ela.

- Então não tente me agradar mais. Tente me esquecer por uns instantes. – Disse Pedro. – Pelo ou menos um dia: Pare de me ligar.

Dizendo isso, Pedro desligou o telefone na cara de Susan.

O motivo da irritação de Pedro era as constantes ligações que a menina fazia a ele. Devem se incluir também os ciúmes que ela sentia. Às vezes até doentio. Mas, no entanto, Susan faria qualquer coisa por Pedro. Poderia até morrer por sua causa. Preocupava-se com ele incessantemente. Eis aí um ponto que chateava Pedro. 

Pedro, que sentia dúvidas se amava ou não Susan, saiu naquele dia para se descontrair, afinal estava de férias em seu trabalho. Foi a diversos lugares sozinho. Sentia-se livre para pensar.

Sentou-se em uma praça e por lá ficou por vários minutos. Ficou estranho. Parecia que lhe faltava alguma coisa.

Andou pela a praia e novamente sentiu aquele mesmo mal estar. Parecia que lhe faltava alguma coisa.
Do alto de um prédio, olhou tudo ao redor. Viu várias pessoas andando de um lado para o outro. 

Novamente sentiu aquela sensação de antes. Parecia que lhe faltava alguma coisa.

Foi a um bosque, lugar que sempre lhe acalmava a alma, porém novamente a sensação. Realmente ...lhe faltava alguma coisa.

Enfim Pedro foi até uma lanchonete comer algo. Pediu um lanche e escutava um noticiário. De repente leu uma mensagem na Tv: “paciente precisa urgentemente de sangue tipo... doadores, por favor, dirijam-se ao hospital...”

Pedro leu aquela notícia com desdém. Seu sangue era compatível ao que o paciente precisava, porém ignorou aquele pedido de ajuda.

Pedro saiu da lanchonete e novamente sentiu aquela sensação estranha. A sensação de um vazio por dentro. Aquilo estava lhe sufocando. Sua respiração estava para lhe abandonar. Meio atordoado, sentou-se em uma rocha, que ficava próximo a um bosque. Tentou respirar novamente e a respiração, enfim, lhe veio naturalmente. Viu vários casais passarem de um lado para o outro.

Pedro, enfim, olhou para o céu e viu em uma nuvem a face de uma mulher lhe sorrindo. Subitamente lembrou-se de Susan. Sim. Aquele mal estar que estava sentindo era á falta de sua amada. A falta de Susan. Pedro não sentia mais dúvidas. Ele realmente a amava. Fechou os olhos, comprou um lindo buquê de rosas e correu para a casa dela. 

Nunca Pedro sentiu tanta felicidade naquele dia. A felicidade de amar e de ser amado por uma pessoa que é mais que especial: uma pessoa escolhida por Deus para viver o resto de sua vida.

Chegando na casa de Susan, Pedro foi informado pela a secretária que a moça foi levado para o hospital. Esta não o informou por quê.

Pedro estava em choque com a notícia.

Correu ao hospital e logo encontrou os familiares de Susan todos abraçados e chorando. Pedro aproximou-se deles e com muitas lágrimas, lhe informaram que a moça havia sofrido um acidente de carro.
Susan havia morrido.

“A falta de sangue tirou a vida de nossa filha”, disse a mãe da moça, “infelizmente quando um doador apareceu, já era tarde demais. Ela já havia morrido”.

A dor que Pedro sentia novamente lhe voltou. Foi difícil superar a perda de Susan.

“E pensar que eu poderia ter lhe ajudado, meu amor”. Disse Pedro com os olhos cheios d´agua




Por Patrick Santos

sábado, 11 de maio de 2013

Saudades Do Meu Amigo



Dos seis filhotes que a nossa cadela Uli teve, Pingo era o mais diferente de todos. Além de ser de cor diferente dos demais, Pingo não tinha pelos em uma parte de sua cabeça. Aquele cão era motivo de escárnio por todos nós. Meus irmãos e primos haviam escolhido quais eram os seus filhotes preferidos. Pingo sempre ficara de fora por ser o mais feio.

Eu brincava com todos eles, porém excluía aquele cachorro de cor diferente. Não gostava dele. Por diversas noites eu o colocava para fora de casa. Até quando chovia forte. Eu o olhava da janela e Pingo ficava sempre chorando debaixo da pia de nosso imenso quintal.

Ainda filhote, Pingo quebrou a sua patinha direita fazendo-o ficar manco para o resto de sua vida. Lembro-me de ter quebrado a patinha do Pingo. Foi num dia em que eu acabara de chegar de minha escola. Os cinco filhotes, que me amavam muito, vieram correndo em minha direção, e pingo, todo alegre,  havia se metido no meio deles. Ao pular em mim, dei um chute demasiado forte no Pingo que fez com que ele se batesse na quina da porta de meu quarto. Pingo chorou tanto naquele dia. Passou a noite inteirinha chorando baixinho, pois meu pai raiava com ele para que ele parasse de chorar. No dia seguinte, Pingo mal conseguia se levantar para comer. Dei leite aos outros filhotinhos e percebi que Pingo não estava no meio deles. Procurei-o por toda a parte da casa e o encontrei debaixo de minha cama, chorando prostrado em minha sandália. Quando fui pega-lo, Pingo soltou um gemido de piedade que me comoveu muito. Sua pata estava inchada e os seus olhos estavam brilhando como nunca eu havia visto antes. Segurei-o em minha mão e ele continuava a chorar bem baixinho. Com uma colher, comecei a dar leite para o Pingo e ele começou a se alegrar como era antes.

Quando eles estavam com quatro meses de vida, um ataque de pulgas se apossou de todos os nossos filhotinhos. O mais afetado foi o Pingo. Parece que os remédios e sabonetes não faziam efeito no pobre coitado. Nele começou a criar umas espécies de pústulas; provavelmente resultado dos ataques das malditas pulgas. Seu corpo ficou recheado de secreções e o filhotinho ficou com um mau cheiro insuportável. Eu implorava para que os meus pais o levassem para um veterinário, porém eles sempre hesitavam; diziam que aquelas secreções iriam sumir com o tempo. Porém o tempo passou e o pobre Pingo continuou com elas. Ele já estava bastante debilitado e não comia mais nada, nem mesmo o leite que eu o lhe dava através de uma seringa.

Chegou um dia em que Pingo já não respirava normalmente. Expirava profundamente e inspirava muito lentamente. Eu já estava preparado para a sua morte. Eu era o único que não saia de perto dele. Vários dias se passaram e Pingo lutou muito para sobreviver. Era um bravo cão. Não queria ceder a sua vida. Pingo ainda queria viver muito.
Em um sábado, um tio nosso passou o dia inteirinho em nossa casa. Quando ele viu o Pingo quase morto em cima de um pano, ele disse para minha mãe que se livrasse imediatamente dele, pois ele poderia prejudicar nãos só aos demais filhotinhos, mais a nós também. Meu pai e minha me olharam, e com os olhos eles entenderam o que eu sentia. Eu não queria me afastar do pingo. Queria passar o resto de sua vida com ele. Eu me sentia culpado por ele estar daquele jeito.

Foi quando me mandaram ir a uma mercearia.

Quando eu cheguei em casa, Pingo já não estava lá. Havia sido cruelmente jogado fora. Perguntei aos meus pais onde ele estava. O que haviam feito com ele. Mas eles ficavam mudos.
Foi quando o meu irmão mais velho me contou que haviam jogado Pingo do outro lado de um terreno que ficava próximo de casa. Corri imediatamente para lá. O pingo havia sido jogado por cima de um muro bastante elevado. Tentei pular, mas em vão. Foi quando eu fiz um buraco naquela parede de tijolos e pude ver o Pingo ainda com vida. Seu corpo estava cheio de formigas e larvas. A sua respiração ainda estava ofegante. Parecia que cada gemido que ele dava era o ultimo que soltava. Subi desesperadamente no muro, através do buraco que eu havia feito, e pulei para socorrer o pobre Pingo. Ele estava com um mau cheiro que poderia me causar náusea, mas tudo que ele me causou foi pena. Coloquei-o em um saco plástico e fui para a cidade buscar ajuda, visto que em minha casa, Pingo já não era mais bem vindo.
Chegando próximo de uma clínica veterinária, pedi ajuda para vários atendentes. Mas como eu não tinha marcado nem um horário na clínica, foi impossível conseguir internar o meu pobre cachorro.
Saindo desacreditado de lá, uma senhora me indicou um grupo de pessoas caridosas que cuidavam de animais sem fins lucrativos. Corri para aquele endereço e consegui deixar o Pingo por lá. Aquelas pessoas tinham um coração que eu jamais poderei decifrar.

Pingo passou vários meses com eles. Todos os dias, após sair da escola, eu ia visitar o Pingo. Ele era outro cão. Cheio de vida. Valeu a pena ele ter lutado para viver. A sua luta não foi em vão. A sua pata, no entanto, não teve jeito. Era irreversível.

Sete meses depois, quando Pingo estava para completar um ano de vida, o grupo que cuidou consideravelmente dele, me propôs para que eu o levasse de volta para minha casa, porém me asseguraram que se eu não tivesse condições ele poderia sim, continuar com eles. Pensei nos meus pais. Eles não sabiam que Pingo ainda estava vivo. Para eles ele já estava morto. Aceitei leva-lo e fazer uma surpresa para os meus pais.

E como eles adoraram a surpresa. Pingo foi recebido com muita festa em casa, afinal ele fora o único remanescente dos filhotes de Uli. Todos já haviam sido doados. Meus pais me chamaram de herói, porém afirmei que os heróis eram outras pessoas de bom coração. Fiz apenas a minha parte, pois eu devia isto ao Pingo.

Foram dias felizes que passamos com o Pingo.

Um dia, Pingo havia fugido de casa. Ele sempre tentava fugir quando eu não estava em casa. Talvez fosse saudade que ele sentia por mim. Ao tentar atravessar uma rua, Pingo, que andava mancando, tentou se sair de um carro que vinha em sua direção, porém em vão. O carro passou por cima dele e o fez morrer na mesma hora. Testemunhas disseram que se Pingo não tivesse a sua perna manca, teria conseguido escapar daquele carro.

O acidente foi próximo de minha escola. Sim, Pingo estava me procurando. Ao ver o meu cachorro deitado naquele asfalto molhado pela a chuva, corri e gritei chorando: “por que fui tão mau com você, Pingo! Por que fui quebrar a sua pata!”

De Você Só Me restaram Boas lembranças



Todas as sextas feiras, Gilberto ia em rumo a um bar bem próximo de seu trabalho para relaxar sua cabeça e bater um bom papo com os seus amigos. Estava se recuperando de um relacionamento passageiro que teve com uma garota que só o iludiu. Prometia a si mesmo não se apaixonar mais por mulheres que adoravam lhe ver se humilhar por elas. Estava disposto a ser rude com essas. Entre um gole de cerveja e uma olhada para o ambiente, Gilberto viu uma linda moça de cabelos encaracolados, saia cinza e usando óculos escuros. Pelo o garçom, Gilberto enviou um recado dizendo se podia sentar-se junto dela. A moça respondeu negativamente para o rapaz que abaixou a cabeça com vergonha e tomou vários copos de cerveja rapidamente. Quinze minutos depois, Gilberto foi até a mesa da moça e pediu a ela delicadamente para que se sentasse e tomassem um drink juntos. A moça enfim assentiu com o pedido do rapaz e naturalmente os dois conversaram como se fossem velhos conhecidos.

- Posso ver seus olhos? – Disse ele.

- É melhor não. – Respondeu ela.

- Tudo bem. Você está com algum problema?

- Estou não. – Respondeu ela.

Ficaram alguns minutos sem se falarem nada. De repente a moça começou a soluçar e Gilberto percebeu que ela estava chorando.

- Você está bem? Quer que eu o leve para a sua casa? – Perguntou Gilberto.

- Não, está tudo bem. Você quer que eu tire os óculos? – Perguntou ela.

- Não se você não quiser.

- Tudo bem. Vou tirar eles. – Disse ela.

Quando a moça tirou os óculos, Gilberto viu em seus olhos um grande inchaço.

- Mas o quê foi isso? – Perguntou Gilberto indignado.

- Caí da escada. Nada demais.

- Isso não parece com queda, Eliza. Está nítido que você sofreu uma agressão.

A moça não conseguiu mais mentir. Contou a verdade para Gilberto. Estava sendo agredida fisicamente e verbalmente por seu marido. “Todos os dias ele me bate”, disse ela. “Prometeu até me matar”.

- Devemos ir até a policia para dar parte deste infeliz. – Disse Gilberto absorto.

- Não devemos. Será pior. Eu já tentei, mas ele quase me enforca neste dia.

- Você não pode continuar ficando assim, a mercê deste maldito.

- Por favor, não se meta. Infelizmente alguns casais passam por desentendimentos, e em alguns casos por agressões. Preciso ir para casa. Adeus!

Eliza retirou-se do bar aos prantos. Gilberto ficou abalado e comovido pela moça. “Não deveria ter lhe pedido para que tirasse os óculos”, disse Gilberto. “Não. Acho que fiz o certo. Agora conheço o seu problema”.

Gilberto pensou em Eliza a semana inteira. Cogitou várias vezes em ir até a delegacia e denunciar o marido da moça. Porém não tinha referências para chegar até ele, e além do mais não poderia se intrometer na vida da moça que conheceu e se falou por umas duas horas apenas. Esqueceu a ideia de denuncia-lo, porém não conseguiu se esquecer de Eliza.

Duas semanas mais tarde, Gilberto encontrou a moça novamente no mesmo bar e na mesma mesa. Ela estava linda com um vestido azul. Gilberto aproximou-se dela e pôde contemplar os lindos olhos castanhos da moça. Novamente conversaram por horas e Gilberto percebeu que ela estava mais feliz do que a noite passada. Só depois que Gilberto passou suas mãos no pescoço de Eliza, foi que ele pôde notar que ela sentia uma dor recôndita.

- Sentes dor? – Perguntou Gilberto.

- É apenas um torcicolo. – Respondeu ela.

- Hum, Sei.

Eliza evitava falar sobre o seu relacionamento e Gilberto, após descobrir a dor da moça, ficou agitado e preocupado com ela. O clima entre os dois ficou frio, e Eliza despediu-se de Gilberto. Na semana seguinte, Gilberto não viu a moça sentada no bar. Ficou até uma hora da manhã lhe esperando, porém em debalde. Alguma coisa dizia a ele que ele nunca mais a veria. Ficou triste e desanimado.
Na outra semana, Gilberto entrou no bar e se deparou com Eliza, tão linda como ele a viu pela a primeira vez. O sorriso dela lhe trouxe alívio, e Gilberto aproximou-se dela com uma alegria que ninguém poderia decifrar.

- Como você está bem, Eliza! – Disse ele. – Seu semblante está ótimo.

- Separei-me de meu marido. Irei me divorciar. Ele não aceitou no começo, mas logo viu que seria o melhor para a gente. Estou de certa forma muito infeliz. Um pouco desapontada com ele, claro. Pensei que ele fosse outra pessoa. Infelizmente ele não continuou o mesmo comigo. Mudou muito depois que nos casamos.

- Fico feliz por você. Você merece um verdadeiro amor. Alguém que nunca mude. Alguém que seja a mesma pessoa até o fim de sua vida. Que lhe acolha nos momentos mais difíceis. Alguém que lhe carregue nos braços quando os seus passos fraquejar.

- Eu só não o denunciei porque pensei que ele iria mudar. Dei várias chances para ele. Meu amor foi paciente, porém ele fraquejou quando chegou ao seu limite.

- Estou muito feliz por você, Eliza. – Disse Gilberto sentindo algo muito forte. – Espero que você seja muito feliz. Ainda te encontro por aqui?

- oh, sim. Podemos nos falar amanhã? Também quero muito falar com você. – Disse ela.

- Podemos sim, Eliza. Também quero muito falar com você. – Ao dizer isso, Gilberto percebeu que ela escrevia alguma coisa debaixo da mesa.

- O quê você está escrevendo aí? – Perguntou Gilberto curiosamente.

- Amanhã saberás. Promete não ler até amanhã? – Propôs ela.

- Sim. Amanhã lerei. Paciência é umas de minhas virtudes. – Respondeu Gilberto.

No dia seguinte, às 21:30, Gilberto sentou-se no mesmo lugar em que eles se conheceram. Lá, ele ficou esperando por Eliza. Estava muito agitado em ler o que estava escrito debaixo da mesa, porém não queria quebrar a promessa que fez com ela. Isso seria um mau começo.

De repente Gilberto ouviu uma noticia que vinha da televisão do bar.

“Jovem é assassinada a facadas em uma loja de roupas. O principal suspeito de tê-la matado é o seu próprio marido que não aceitava o término do casamento deles.”

- Que coisa! – Disse o proprietário do bar. – Essas notícias trágicas estão ficando rotineiras.

Gilberto via a notícia com o coração abalado. “Não pode ser Eliza. Seu marido havia aceitado”.

A notícia seguia e quando o jornal expôs a foto da moça, Gilberto entortou os lábios e chorou muito por dentro. Não conseguia controla-lo.

- Mas essa moça já veio aqui no bar. – Disse o proprietário.

- Sim, já veio. – Disse Gilberto com as mãos em sua testa. – Já veio sim.

Gilberto enfim lembrou-se da escrita na mesa.

Quando Gilberto abaixou-se para ler o que estava escrito por Eliza, leu a seguinte mensagem:

“Estou perdidamente apaixonada por você. Espero que você nunca me decepcione, meu amor”

- Eu jamais te decepcionaria, meu amor. Jamais.


Por Patrick Santos

O Ribeirinho



Dois homens ricos, Carlos e Roberto, amigos de infância, precisavam atravessar um rio para chegarem a um determinado lugar; foi quando avistaram um ribeirinho que vinha em sua canoa.

Os homens ofereceram dinheiro ao ribeirinho para os levarem aos seus destinos.

O ribeirinho prontamente assentiu.

- Você já conheceu Cidade grande? – Perguntou Roberto ao ribeirinho

- Não. – Respondeu o ribeirinho.

- Poxa, amigo. Então você perdeu uma parte da sua vida. – Respondeu Roberto.

Os dois riram.

- Você terminou os seus estudos, seguiu alguma faculdade? – Perguntou Carlos.

- Não. – Respondeu o ribeirinho.

- Que pena! Você perdeu a metade da sua vida. – Disse-lhe Carlos.

Nisso, uma tempestade violenta fez a canoa virar. Os três caíram.

- E Agora, não sei nadar.  – Disse Carlos .

- Nem eu – Redarguiu Roberto.

O ribeirinho olhou para os dois e respondeu:

- Então, meus amigos, é uma pena. Vocês perderam as suas vidas.

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